NAS TRINCHEIRAS, PELA ORQUESTRA SINFÔNICA MUNICIPAL DE CAMPINAS

dez 14 • Arte e Cultura, Cidade, ComportamentoNenhum comentário em NAS TRINCHEIRAS, PELA ORQUESTRA SINFÔNICA MUNICIPAL DE CAMPINAS

Luiz Roberto Saviani Rey
(Jornalista – MTB 13.254)

Em uma noite fria e chuvosa de 1979 – na verdade madrugada, 3h30m -, um repórter do vibrante mas extinto jornal Diário do Povo, sonolento e febril, depois de cobrir uma sessão ordinária que ainda seguiria até as 6h da manhã – carregada de mistérios e surpresas -, deixou rapidamente o prédio da Câmara Municipal de Campinas pela janela do setor de arquivos, levando uma pesada sanefa de cortinas que desabou sobre sua cabeça na escuridão da sala. O repórter só poderia ter abandonado o prédio dessa maneira, para não descobrirem sua ação daquela noite. Ele saiu correndo sob a chuva fina pela avenida Anchieta, depois pela rua Bernardino de Campos, em direção ao Bilhar Estrela D’Alva, junto à Estátua de Carlos Gomes. Trazia nas mãos documentos e recortes, fichas de registros que protegia da chuva, e, afoito e nervoso, interrompeu subitamente a partida de bilhar em uma das mesas dos fundos, onde o editor Zaiman Brito preparava-se para encaçapar a última bola e arrematar uma aposta em dinheiro. De segunda a sexta, os editores do Diário varavam madrugadas nas mesas do bilhar, após o fechamento do jornal. Durante toda a noite, o repórter procurou informações sobre uma eventual sessão extraordinária secreta, cuja convocação fora publicada em um Diário Oficial que sumira. Haviam recolhido os exemplares impressos para ninguém saber da tal sessão, que seria realizada na noite seguinte. O repórter, vasculhando os cantos daquela casa de leis, achou um exemplar. A convocatória dizia que os vereadores votariam um projeto de resolução que extinguia uma tal lei. E não dizia mais nada! O jornalista pensou consigo: já que tudo é tão secreto, se perguntar sobre o assunto, certamente irão negar ou dispersar a sessão. Calado, ele desceu as escadas escuras até a seção de arquivos e procurou a ficha da lei. Descobriu que, da noite para o dia, a Câmara acabaria com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, e que dezenas de famílias ficariam sem emprego, porque um vereador achava seus gastos excessivos e queria empregá-los em obras de esgotos. A lei que seria extinta era a da criação da Orquestra Sinfônica. No bilhar, antes de entenderem o que se passava, os editores do Diário chamaram o repórter de louco, mandaram-no para casa que no outro dia iam atrás do assunto. “Você está com febre”, disse o Zaiman. Mas, no momento em que a ficha original da lei a ser extinta fora jogada pelo repórter sobre o teor do Diário Oficial, todos correram, súbita e coletivamente, para reabrir o jornal e colocar a informação bombástica! Seis homens correndo feito fundistas pela rua Barão de Jaguara, com o editor-chefe Romeu Santinidando as ordens, sob a chuva, sobre como fariam para reabrir às 4h20 da manhã um jornal feito no chumbo, e que já havia rodado muitos mil exemplares. Um feito histórico! Às seis da manhã, o jornal levou a manchete’ aos leitores: “Câmara quer dar fim à Sinfônica”, na capa, e Câmara convoca sessão secreta para extinguir a Sinfônica”, na página interna. Na sessão em tela, músicos, maestros e artistas de todo o Brasil compareceram ao plenário com narizes de palhaço… e a Sinfônica ficou intocada! Salva da morte súbita. Senhores, modestamente, esse repórter sou eu!!! Com muito orgulho!!! Embora nunca a cidade, nem a Orquestra Sinfônica, tenham reconhecido esse trabalho. Sem cabotinices, a Sinfônica pôde vicejar por décadas, como o orgulho da cidade! Foi a alma da campanha das Diretas-Já e elevou o nome de Campinas no Brasil e no Exterior. Enalteço o nome do memorável maestro Benito Juarez! Usei na abertura deste artigo um depoimento do Zé Pedro Martins como forma de dar credibilidade ao fato. Vejo agora, entristecido, que arremetem-se novamente contra a Orquestra, tentando apagar esse símbolo de cultura e arte inexpugnável que todos amamos. Eu, em particular, por essa relação humanístico-jornalística com ela. Só quero dizer uma coisa: estou nessa guerra que mal começou! Já cavei minhas trincheiras e soquei a pólvora no mosquetão! Não toquem na Sinfônica! Deixem que ela toque para nosso gáudio e orgulho! Não é apagando a cultura, eliminando as artes, que se arruma dinheiro para a saúde e a educação. Há fórmulas mais inteligentes para isto!!! Repito: preservem a Orquestra Sinfônica de Campinas, ou extingam tudo quanto é elemento de administração pública, já que nem país temos mais!!!

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