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Janeiro Branco
O Brasil vive uma epidemia silenciosa de ansiedade e sofrimento psíquico. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo convivem hoje com algum transtorno mental, como ansiedade e depressão. No país, os números assumem dimensões ainda mais preocupantes: uma em cada quatro pessoas entrevistadas em uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) afirmou ter tido pensamentos suicidas nos seis meses anteriores ao levantamento. Mais da metade relatou o desejo de se isolar completamente.
Esse cenário é agravado por uma combinação de fatores que afetam diretamente o cotidiano da população, como o uso excessivo de redes sociais, a instabilidade econômica, a sobrecarga emocional, o excesso de estímulos e a polarização nos debates públicos. Especialistas apontam que esse conjunto de pressões tem contribuído para o aumento dos níveis de ansiedade, estresse crônico e esgotamento mental no país, e o impacto é observado em diferentes esferas da vida social, com reflexos na saúde pública, no ambiente de trabalho, nas relações familiares e no desempenho escolar.
Para a terapeuta e autora Daniela Suniga, esse contexto exige mais do que campanhas informativas ou discursos superficiais sobre bem-estar. Exige uma mudança real de postura diante da própria vida. “Saúde mental não se resolve adiando sentimentos. Se resolve nomeando, sentindo e colocando limites. Fingir que está tudo bem é o que mais machuca”, afirma Daniela.
No Janeiro Branco, mês de conscientização sobre a importância da saúde mental e emocional, Daniela propõe uma reflexão profunda e prática a partir das 5 camadas da saúde mental, níveis interdependentes do cuidado com a mente e com a vida afetiva. A proposta parte do princípio de que o sofrimento psíquico raramente tem uma única causa e não se resolve com soluções isoladas. Ao contrário, ele se constrói e pode ser cuidado a partir de diferentes dimensões que envolvem consciência, expressão emocional, comportamento, responsabilidade e presença.
Segundo a terapeuta, essas camadas não funcionam como etapas lineares, mas como pilares que se sustentam mutuamente. Ignorar uma delas tende a sobrecarregar as outras e criar desequilíbrios que se manifestam em forma de ansiedade, esgotamento, conflitos relacionais ou adoecimento emocional.
O modelo propõe um olhar mais amplo e preventivo sobre saúde mental, que vai além do tratamento de sintomas e foca na forma como as pessoas se relacionam consigo mesmas, com os outros e com o próprio tempo interno.
1ª camada – Consciência: parar de fingir
Para Daniela Suniga, a saúde mental começa pela consciência, ou seja, pela capacidade de reconhecer o que se sente sem negar ou minimizar emoções. Fingir que está tudo bem, segundo ela, não é um mecanismo neutro: é um fator que prolonga o sofrimento psíquico e impede intervenções precoces. A negação constante de sinais como tristeza persistente, ansiedade ou irritabilidade tende a ampliar o desgaste emocional e levar a quadros mais graves. “Consciência é olhar para dentro sem desculpas. Fingir normalidade só alimenta sofrimento silencioso”, afirma a terapeuta.
2ª camada – Verdade emocional: nomear o que dói
A segunda camada diz respeito à alfabetização emocional: a capacidade de identificar e nomear sentimentos. Estudos indicam que emoções reprimidas ou não reconhecidas podem se manifestar por meio de sintomas físicos, ansiedade crônica e esgotamento. Para Daniela, a dificuldade não está na intensidade da dor, mas no silêncio em torno dela. Ela explica que nomear emoções não significa dramatizar, mas compreender o que está sendo vivido para interromper ciclos de sofrimento automático. “Aquilo que não é nomeado vira sintoma. Saúde mental exige coragem para sentir sem se julgar”, diz.
3ª camada – Limites: parar de se abandonar
A ausência de limites aparece como um dos principais fatores associados ao esgotamento emocional. Segundo Daniela, muitas pessoas desenvolvem sofrimento psíquico por se anularem constantemente em relações pessoais e profissionais, movidas pelo medo de decepcionar ou de não pertencer. O estabelecimento de limites claros é apresentado como uma medida de prevenção em saúde mental, especialmente em contextos de alta demanda emocional. “Limite não é afastamento, é autorrespeito. E sem autorrespeito, não existe saúde mental”, ressalta.
4ª camada – Responsabilidade afetiva com a própria vida
Nesta etapa, Daniela propõe um deslocamento importante: sair da lógica da culpa e entrar na lógica da responsabilidade emocional. Para ela, cuidar da saúde mental envolve reconhecer que, embora o passado influencie, é no presente que as escolhas emocionais são feitas. Assumir responsabilidade afetiva significa reconhecer padrões, buscar ajuda quando necessário e agir de forma consciente diante das próprias emoções. “Não é sobre culpar o passado, é sobre escolher diferente agora”, afirma.
5ª camada – Presença: onde a cura começa
A última camada está relacionada à presença e à atenção ao momento atual. Daniela explica que a mente constantemente projetada no futuro ou presa ao passado tende a intensificar quadros de ansiedade e culpa. A prática da presença, por meio de pausas, respiração e escuta interna, atua como um fator de regulação emocional. Ela destaca que a presença não elimina problemas, mas cria condições internas para lidar melhor com eles. “Presença não resolve tudo, mas sustenta tudo. E uma mente presente sofre menos.”
Por que falar de saúde mental agora?
O Brasil ocupa posições alarmantes nos índices de ansiedade global, com quase um quarto da população enfrentando sintomas que interferem no trabalho, na vida familiar e nas relações cotidiana. Nesse contexto, o Janeiro Branco é mais que uma campanha, é um chamado à ação: reconhecer sentimentos, restabelecer limites e cultivar presença emocional como práticas contínuas de cuidado consigo mesmo.

Especialista em saúde mental, treinadora de mentes, terapeuta, mentora e autora com mais de 20 anos de atuação, Daniela Suniga combina experiência clínica, pesquisa e linguagem acessível para transformar sofrimento em compreensão, medo em coragem e silêncio em consciência. É autora de Audácia de Ser Feliz, idealizadora de projetos voltados à educação emocional e uma voz influente em temas de saúde mental e bem-estar.
