Avatar dá voz a médica e paciente com ELA/Divulgação
Tecnologia utiliza movimento dos olhos para permitir interação com o sistema por meio do teclado do computador. O avatar digital é alimentado pela produção científica da médica psiquiatra Dra. Maria Inês Quintana, acometida com ELA, e treinado para reproduzir sua voz e sua forma de comunicação, possibilitando a realização de aulas e palestras

A médica psiquiatra Dra. Maria Inês Quintana, 55 anos, professora da Faculdade Unimed, em São Paulo, esteve em Campinas para participar da demonstração de projeto tecnológico que combina inteligência artificial, rastreamento ocular e avatar digital, o qual permitiu a ela voltar a dar aulas e palestras, se comunicar e participar de atividades acadêmicas utilizando apenas o movimento dos olhos, único recurso motor de seu corpo que permanece preservado, após ter sido diagnosticada com ELA ou Esclerose Lateral Amiotrófica. O encontro aconteceu na Unimed Campinas, apoiadora financeira do Projeto ExtensIA.
Maria Inês Quintana é uma das principais especialistas brasileiras em Transtorno de Personalidade Borderline, professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Unifesp e coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed. Diagnosticada com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em 2023, viu a doença neurodegenerativa provocar a perda progressiva dos movimentos até comprometer sua capacidade física. Seu conhecimento, sua inteligência e sua experiência profissional, porém, permaneceram intactos.
Foi a partir dessa realidade que surgiu o ExtensIA, projeto desenvolvido pela Faculdade Unimed em parceria com a WorkAI. A tecnologia utiliza rastreamento ocular para permitir que Maria Inês interaja com o sistema por meio do teclado do seu computador e produza conteúdo. Seu avatar digital é alimentado por sua produção científica e treinado para reproduzir sua voz e sua forma de comunicação, possibilitando a. realização de aulas e palestras. A iniciativa também prevê, na etapa seguinte, o retorno dela ao atendimento de pacientes, ampliando as possibilidades de uso da inteligência artificial assistiva para promover autonomia e continuidade profissional.
“A tecnologia devolveu a possibilidade de continuar ensinando, compartilhando conhecimento e participando da vida acadêmica. Hoje consigo me comunicar novamente e manter atividades profissionais, mesmo diante das limitações físicas. Posso afirmar que a inteligência artificial salvou minha vida quando o meu corpo decidiu não seguir mais o ritmo de meu cérebro”, explica a médica por meio de seu avatar digital.
Sobre o projeto
O ExtensIA está em fase beta, ou seja, no período em que uma tecnologia, sistema ou produto já está funcionando, mas ainda se encontra em fase de testes e aperfeiçoamentos, antes de ser chegar à versão definitiva. O projeto recebeu investimento conjunto de R$ 5 milhões, do qual participaram a Unimed Campinas, a Unimed BH e a Seguros Unimed, com o objetivo de ampliar o acesso a tecnologias assistivas voltadas à acessibilidade, inclusão, autonomia e continuidade profissional.
O projeto também prevê outras aplicações. Uma das frentes desenvolve um agente clínico treinado com o acervo científico da psiquiatra, enquanto outra utiliza o avatar digital e sistemas multiagentes para atividades acadêmicas e educacionais. A proposta é que a tecnologia possa, futuramente, ser utilizada por profissionais de diferentes áreas do conhecimento que mantenham preservadas suas capacidades cognitivas, mas enfrentam limitações motoras severas.
Segundo Eduardo Barros, CEO da WorkAI, o objetivo é garantir que limitações físicas não interrompam trajetórias profissionais construídas ao longo de décadas.
O projeto prevê, em etapa futura, o retorno ao atendimento de pacientes por telemedicina
“Esse projeto, que engrandece a medicina, é uma lição de generosidade e humanização de uma profissional que se dispôs a participar dessa experiência, apesar das limitações impostas pela doença que a acomete. Preservar o capital intelectual de especialistas como a Dra. Inês Quintana é também cuidar de milhares de pacientes que ainda serão beneficiados pelo conhecimento que ela acumulou”, pontua o presidente da Unimed Campinas, Dr. Gerson Muraro Laurito.
Para o Dr. Fábio Gastal, diretor acadêmico da Faculdade Unimed, o ExtensIA representa uma nova forma de preservar e compartilhar o conhecimento humano diante de doenças irreversíveis.
