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Jornal de Campinas

Artigo Rafael Cervone: Autonomia que salva vidas

Rafael Cervone agosto Credito RonconGraca Com

Rafael Cervone/Crédito Roncon&Graça Com

Autonomia

Há números que nos obrigam a refletir. Outros nos constrangem como sociedade. E há aqueles que simplesmente não podem ser naturalizados, como a violência contra a população feminina. Milhares de pessoas continuam sendo assassinadas apenas por serem mulheres, enquanto milhões convivem todos os dias com diferentes formas de violência física, psicológica, patrimonial, moral ou sexual.

Em 2025, registrou-se o recorde de 1.571 feminicídios, média de quatro mulheres mortas por dia, segundo o relatório 2026 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, recém-divulgado. Apenas no primeiro semestre de 2026, outros 741 casos foram contabilizados, conforme dados oficiais dos ministérios da Justiça e da Segurança Pública. A resposta para essa realidade não é única, pois passa por educação, acolhimento, ações de segurança pública, Justiça eficiente e transformação cultural.

Porém, existe um fator que considero decisivo e que, muitas vezes, permanece em segundo plano: autonomia financeira. Quantas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque não têm renda própria? Não se trata de afirmar que autonomia financeira elimina a violência. Seria simplificar um problema complexo. Entretanto, a independência proporciona algo indispensável: liberdade de escolha.

É nesse ponto que o setor produtivo pode e deve exercer um papel transformador. Na indústria paulista, um exemplo inspirador é o programa Elas na Indústria, que acaba de entrar em sua sétima edição. Criado pela Fiesp e desenvolvido em parceria com o Ciesp, é uma estratégia para a formação de lideranças femininas, conectando executivas experientes a profissionais em ascensão para acelerar carreiras e ampliar competências.

Desde sua criação, em 2021, já contemplou quase 1.600 participantes. Mais de 23% delas relataram crescimento profissional após a conclusão da mentoria. Quando se ampliam oportunidades para mulheres ocuparem posições de liderança, se fortalece sua autonomia econômica e sua capacidade de decisão sobre o próprio futuro. Em muitos casos, isso ajuda a construir condições para que elas jamais precisem permanecer em ambientes marcados pelo medo ou pela violência.

Acredito que essa seja uma das formas mais inteligentes de responsabilidade social empresarial: criar oportunidades reais de crescimento, geração de renda e desenvolvimento profissional. A inclusão produtiva não deve ser vista apenas como política de recursos humanos, pois também representa uma poderosa ferramenta de proteção social.

Nada substitui o papel e a responsabilidade do Estado no enfrentamento da violência contra a mulher. É indispensável fortalecer as políticas públicas, ampliar a rede de proteção,

garantir respostas rápidas da Justiça e investir cada vez mais e melhor em educação. Só assim será possível mudar padrões culturais enraizados.

Seria um equívoco imaginar que o setor privado não tem responsabilidade nesse processo. Empresas e entidades de classe influenciam culturas, criam referências, movimentam economias e ajudam a redefinir oportunidades. Quando escolhem investir na capacitação feminina, contribuem para uma sociedade mais justa e mais segura.

 

Rafael Cervone, engenheiro têxtil, é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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