OUTUBRO ROSA
Outubro costuma concentrar a atenção sobre a prevenção do câncer de mama, mas a mobilização em torno da saúde feminina também pode lançar luz sobre uma mudança que já acontece nos consultórios: as mulheres estão vivendo mais e chegam às décadas seguintes da vida com novas demandas de saúde, sexualidade, trabalho, relacionamentos e qualidade de vida. Em 2024, a expectativa de vida feminina chegou a 79,9 anos, segundo o IBGE, enquanto a dos homens ficou em 73,3 anos. Os números ajudam a explicar uma mudança que já chega aos consultórios: cuidar da saúde da mulher depois dos 40 exige olhar para um período cada vez mais longo e ativo da vida. Nesse cenário, a consulta ginecológica depois dos 40 anos deixa de ser apenas uma oportunidade para solicitar exames e passa a funcionar como um espaço de avaliação integral.
A fase dos 40 anos também pode marcar o início do climatério, período de transição que antecede a menopausa e pode se estender por vários anos. Alterações no ciclo menstrual, ondas de calor, mudanças no sono, variações de humor, queda da libido e sintomas geniturinários podem aparecer de formas diferentes e nem sempre são imediatamente associados às mudanças hormonais. A própria Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) destaca que o climatério deve ser encarado como uma oportunidade para promoção da saúde e não apenas como uma fase marcada por sintomas. Por isso, uma consulta nessa fase pode começar com perguntas que vão muito além da queixa ginecológica mais evidente. Como está o ciclo? Houve mudança no padrão de sangramento? Como está o sono? “Depois dos 40, a consulta precisa acompanhar a mulher que existe por trás da queixa. Nem toda alteração será necessariamente consequência da menopausa e nem todo sintoma deve ser naturalizado como parte do envelhecimento”, explica a ginecologista e obstetra Ana Carolina Massarotto.
PREVENÇÃO TAMBÉM MUDA AO LONGO DA VIDA
O histórico pessoal e familiar passa a ter peso ainda maior na definição das estratégias de prevenção. No caso do câncer de mama, por exemplo, o rastreamento precisa considerar idade, fatores de risco e histórico individual. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomenda, para a população geral, a mamografia de rastreamento entre 50 e 69 anos, a cada dois anos. Mulheres com fatores de risco específicos podem ter uma estratégia diferente, definida individualmente.
A consulta também é uma oportunidade para rever a prevenção do câncer do colo do útero. O Brasil atualizou recentemente suas diretrizes e passou a incorporar o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico como método primário de rastreamento. Para mulheres de 25 a 64 anos, o teste negativo permite um intervalo maior até a próxima avaliação, conforme o protocolo adotado. “Isso reforça uma mudança importante: não existe um único check-up da mulher depois dos 40. A avaliação precisa considerar a fase da vida, os sintomas, os antecedentes e os fatores de risco de cada paciente”, reforça a ginecologista e obstetra Isabela Simionatto.
MENOPAUSA NÃO ENCERRA A VIDA ATIVA
Outro ponto que ganha espaço nessa conversa é a menopausa. Com o aumento da expectativa de vida, ela deixou de ser encarada apenas como o momento em que termina a menstruação. É uma fase que pode representar uma parcela significativa da vida da mulher e que merece acompanhamento médico justamente porque algumas mudanças hormonais repercutem em diferentes sistemas do organismo.
A saúde óssea é um exemplo. A redução do estrogênio aumenta a perda de massa óssea, tornando importante avaliar fatores de risco para osteopenia e osteoporose e orientar medidas preventivas, como atividade física, alimentação adequada e, quando indicado, investigação específica. O risco cardiovascular também entra nessa conversa. Diretrizes brasileiras destacam a importância de avaliar os fatores de risco cardiovasculares durante o climatério e a menopausa. A terapia hormonal, quando considerada, deve ser individualizada e não pode ser tratada como uma prescrição automática para todas as mulheres.
E existe ainda uma dimensão frequentemente deixada de lado: a sexualidade. Ressecamento vaginal, dor durante a relação e alterações do desejo são sintomas que podem aparecer nessa fase, mas não devem ser simplesmente classificados como consequência inevitável da idade. A FEBRASGO reforçou recentemente que a saúde sexual faz parte do cuidado integral da mulher e que a avaliação deve considerar fatores hormonais, físicos, emocionais, relacionais e medicamentosos. “Menopausa não significa deixar de viver uma vida ativa. A mulher continua tendo projetos, relações, trabalho, desejo, atividade física e planos. O cuidado médico precisa acompanhar essa mulher real e não uma ideia antiga sobre o que significa envelhecer”, defendem Ana Carolina Massarotto e Isabela Simionatto.
O QUE DEVERIA ENTRAR NA CONVERSA DEPOIS DOS 40?
Depois dos 40, portanto, a consulta pode ser o momento de rever ciclo menstrual, contracepção e fertilidade, sintomas da perimenopausa, sexualidade, sono, vacinação, rastreamento do HPV e de outros cânceres, saúde óssea e cardiovascular, além de atividade física, composição corporal, saúde emocional e histórico familiar. “Estamos falando de olhar para essa mulher de forma integral e não apenas para um período da vida que ela vai enfrentar. Depois da puberdade, o climatério e a menopausa são momentos que definem comportamentos femininos e isso não pode ser ignorado ou menosprezado”, alertam as médicas.
