Jornal de Campinas

28 de abril: Dia Mundial da Educação e a oportunidade oculta nos números do Censo Escolar

Computadores em sala de aula freepik

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O Brasil acaba de perder 1 milhão de alunos na educação básica em um único ano. Diante de uma manchete assim, a reação instintiva é o alarme. Mas o que os números do Censo Escolar 2025 realmente trazem é uma oportunidade oculta. E o que decidirmos fazer com ela pode mudar o futuro educacional do país.

Dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que as matrículas na educação básica caíram de 47,1 milhões para 46 milhões, uma redução de 2,3%. No ensino médio, o recuo foi de 5,4%, com 419 mil jovens a menos — o menor patamar em todo o século XXI. A demografia explica parte do fenômeno: a taxa de fecundidade recuou para 1,55 filho por mulher, bem abaixo da reposição. A população de 0 a 3 anos encolheu 8,4% entre 2022 e 2025. Nascem menos crianças, e as ondas demográficas que antes enchiam as escolas agora recuam. Mas atribuir tudo à demografia é confortável demais.

O ensino médio, que atingiu pico histórico em 2004, com 9,16 milhões de estudantes, acumula perda de quase 2 milhões de matrículas em duas décadas. Trata-se de uma tendência estrutural, observada também em países como Coreia do Sul e Japão, além de grande parte da Europa. A diferença é que essas nações transformaram o declínio demográfico em estratégia: investiram mais por aluno, reorganizaram redes e modernizaram currículos.

São Paulo, estado mais populoso e mais rico, respondeu sozinho por 60% de toda a queda no ensino médio; foram 259 mil matrículas a menos. A rede pública perdeu 425 mil matrículas enquanto a privada cresceu. Quando o motor econômico do país lidera uma estatística assim, o sinal é inequívoco: há abandono, desinteresse e desconexão entre o que a escola oferece e o que o jovem precisa. Segundo o Inep, apenas Amapá, Distrito Federal e Pernambuco registraram crescimento no ensino médio.

Há, porém, boas notícias. A distorção idade-série no 3º ano do ensino médio caiu 61% em quatro anos. As matrículas em tempo integral quase dobraram desde 2020, alcançando 8,8 milhões. O ensino fundamental segue praticamente universal. O acesso à creche se aproxima da meta do PNE. São conquistas reais.

Aqui está o paradoxo que deveria orientar o debate: menos alunos pode ser, pela primeira vez, uma boa notícia. Por décadas, enfrentamos o desafio de absorver uma população jovem em rápida expansão. Agora, a transição demográfica nos oferece uma janela para mudar de paradigma — redirecionar recursos para qualidade: turmas menores, formação docente, tecnologia, acompanhamento individualizado. Finlândia e Coreia do Sul fizeram exatamente isso durante suas transições demográficas e colhem excelência há décadas. A diferença entre um país que envelhece com sabedoria educacional e um que envelhece com defasagem é a decisão política que se toma agora.

Se há uma etapa que sintetiza o desafio, essa etapa é o ensino médio. A perda de 419 mil matrículas não decorre apenas da demografia. Há abandono, desinteresse e desconexão entre escola e projeto de vida. Reconhecer isso é apenas o primeiro passo.

Todos os dias, nos nossos campi, acompanhamos mais de 800 mil estudantes de graduação e vemos o impacto do que acontece — ou deixa de acontecer — no ensino médio. Com o Propag, o Programa Juros pela Educação, e o Pé-de-Meia, governos e iniciativa privada têm instrumentos concretos para impulsionar o ensino médio técnico com ganhos fiscais e investimento inicial zero para os estados. Estamos trabalhando nessa frente porque acreditamos que podemos mudar o cenário para esses jovens.

O Censo 2025 é mais que estatística: é um chamado. E a janela demográfica, finita. Se não a aproveitarmos para investir mais por aluno, valorizar professores e repensar o ensino médio, teremos desperdiçado uma oportunidade que não se repete.

Menos alunos pode ser o início de uma revolução silenciosa — ou mais um capítulo de desperdício. A diferença está nas escolhas que fizermos agora. A era da expansão quantitativa ficou para trás. O desafio que se impõe é mais sofisticado e decisivo: construir uma educação que valha a pena — para cada aluno na sala de aula e para os 419 mil que saíram dela.

 

Profa Claudia Divulgacao Wyden

Claudia Romano, presidente do Semerj (Sindicato das Entidades Mantenedora dos Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado do Rio de Janeiro),vice-presidente do Grupo Yduqs e presidente do Instituto Yduqs 

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