Paciente em tratamento/seventyfourimages
1ª Semana de Bioética em Defesa da Vida ,que acontece de 28 a 30 de abril, coloca em foco um tema cada vez mais urgente: como proteger o idoso do sofrimento evitável, do excesso de intervenções e da falta de cuidado no fim da vida
A 1ª Semana de Estudos em Bioética e Defesa da Vida abre espaço para uma discussão que atravessa famílias, serviços de saúde e instituições de acolhimento: o desafio de garantir dignidade no envelhecimento e no processo de morrer. O evento, inédito em Campinas, será realizado pela Comissão Arquidiocesana de Bioética e Defesa da Vida nos dias 28, 29 e 30 de abril, com participação gratuita e presença de especialistas das áreas da medicina, teologia, psiquiatria e direito. As inscrições podem ser feitas na secretaria do Santuário Paróquia Santa Rita de Cássia ou pelo WhatsApp (19) 3252-2261.
Os debates serão realizados no Centro de Pastoral Monsenhor Fernando, em Campinas, sempre das 19h30 às 21h30. As discussões serão conduzidas pelo organizador, o Padre José Antônio Trasferetti, Reitor do Santuário Santa Rita de Cássia e Doutor em Filosofia e Teologia. O formato do evento privilegia o diálogo interdisciplinar a partir de pontos de vistas de profissionais que lidam cotidianamente com questões de terminalidade e cuidados paliativos.
O tema ganha força em um momento em que o aumento da população idosa expõe limites do modelo de cuidado centrado apenas na manutenção biológica da vida, mesmo quando já existe sofrimento intenso, perda de autonomia e baixa perspectiva de recuperação.
“O debate é necessário porque o fim da vida, especialmente na velhice, raramente se resume a um episódio isolado. Em muitos casos, trata-se de um processo prolongado, marcado por doenças crônicas, fragilidade, dependência e necessidade contínua de suporte. Nessa fase, o cuidado adequado não depende apenas de recursos tecnológicos, mas da capacidade de aliviar dor, controlar sintomas, respeitar preferências e oferecer acompanhamento humano até o último momento”, explica um dos participantes do encontro, o médico oncologista Fernando Medina, do Centro de Oncologia Campinas.

Quando prolongar a vida deixa de significar cuidar
Um dos pontos mais sensíveis dessa discussão sobre finitude é a diferença entre tratar e prolongar o sofrimento. Há situações em que procedimentos e intervenções mantêm funções biológicas por mais tempo, mas sem benefício real para a qualidade de vida.
Nesses casos, o excesso de medidas pode transformar o fim da vida em um percurso de dor, angústia e desgaste para o paciente e para a família. A literatura bioética identifica esse cenário como uma forma de cuidado desproporcional, em que a morte é adiada, mas o sofrimento cresce.
Por outro lado, limitar intervenções inúteis não significa abandonar a pessoa. Significa redirecionar o cuidado para aquilo que realmente importa na fase final da vida: conforto, controle de sintomas, escuta, acolhimento e respeito à dignidade. Essa mudança de foco tem sido apontada como essencial para evitar que o processo de morrer se torne ainda mais doloroso e desumano.
“A discussão bioética não se restringe ao abuso de tecnologia. Ela também chama atenção para uma realidade menos visível e igualmente grave: a morte marcada pela falta de assistência adequada. Quando faltam analgesia, acompanhamento profissional, condições mínimas de cuidado, apoio institucional e acesso regular à saúde, o sofrimento se agrava não por excesso de procedimentos, mas pela ausência deles”, argumenta Medina.
Instituições de longa permanência enfrentam um dos maiores desafios
O tema se torna ainda mais urgente nas instituições voltadas ao cuidado prolongado de idosos. As normas sanitárias brasileiras determinam que esses espaços devem garantir dignidade, privacidade, atenção integral à saúde, prevenção de violência e monitoramento das condições clínicas dos residentes. Isso significa que o cuidado institucional não pode se limitar à hospedagem ou à rotina básica: ele deve incluir resposta qualificada à fragilidade, ao agravamento clínico e à terminalidade.
Apesar disso, os estudos reunidos mostram que a experiência de morrer nesses ambientes ainda é marcada por sofrimento físico, solidão, sintomas mal controlados, necessidades emocionais pouco atendidas e falhas na comunicação sobre preferências de fim de vida. Em vez de ser reconhecida como parte do cuidado, a terminalidade muitas vezes chega sem planejamento suficiente, ampliando a sensação de abandono e desconforto.
As evidências apontam que o cuidado paliativo continua sendo uma das respostas mais importantes para proteger a dignidade de pessoas idosas em fase avançada de doença.
“Essa abordagem busca melhorar a qualidade de vida por meio do alívio do sofrimento físico, psicossocial e espiritual, além do suporte à família e a organização mais humana do cuidado. O problema é que esse tipo de assistência ainda costuma chegar tarde, muitas vezes apenas nos últimos dias, quando deveria estar presente bem antes”, esclarece Medina.
Outro aspecto decisivo é a necessidade de discutir previamente quais cuidados a pessoa deseja ou não deseja receber quando já não puder se expressar com autonomia. “As normas éticas brasileiras reconhecem esse direito e indicam que essas manifestações devem orientar decisões clínicas futuras. No envelhecimento, essa conversa se torna ainda mais importante, já que perdas cognitivas e episódios de incapacidade decisional são mais frequentes”, salienta.
O evento
As mesas contarão com médicos experientes em oncologia, cardiologia e clínica médica. Dentre eles, o neuropediatra Marcos Duran, a otorrinolaringologista Raquel Mezzalira, Francisco Kerr Saraiva, cardiologista especialista em doenças cardiovasculares e diretor do Instituto de Pesquisa Clínica de Campinas; e a dermatologista Regina Sartori, dentre outras referências da medicina.
A primeira mesa redonda, no dia 28, será dedicada à questão “A morte e o dinheiro”. O tema aborda como o capitalismo molda nossa relação com a existência. Serão discutidos o sentido da vida frente ao apego material, as pressões do ambiente cultural consumista e o papel da família como espaço de resistência ou reprodução desses valores.
No segundo dia, as discussões envolverão a “Pré-morte”, um dos territórios mais complexos da bioética contemporânea. Conceitos como eutanásia (morte assistida), ortotanásia (não prolongar a vida artificialmente) e distanásia (tratamento desproporcional que prolonga o sofrimento) serão desvendados em toda sua carga ética e legal.
O último dia do encontro abordará o “Pós-Morte”. Funerais, exéquias, testamentos, luto e memória serão examinados sob a lente teológica e antropológica. “Este dia propõe uma cura para o “luto complicado” da modernidade, onde os rituais de despedida foram diluídos e o sofrimento silenciado”, detalha Fernando Medina.
SERVIÇO
Evento: 1ª Semana de Estudos em Bioética e Defesa da Vida
Quando: dias 28, 29 e 30 de abril, das 19h30 às 21h30
Onde: Centro de Pastoral Monsenhor Fernando, à Rua Hermas Braga, 186, bairro Nova Campinas – Campinas – SP
Quanto: Gratuito
Inscrições: na secretaria do Santuário Paróquia Santa Rita de Cássia (Av. Dr. Jesuíno Marcondes Machado, 670 – Nova Campinas) ou pelo WhatsApp (19) 3252-2261.
