O beijo do Superman


O homem que está seguro da sua sexualidade não deveria se incomodar com a sexualidade do outro, já que cada um vive de acordo com seus próprios desejos

A notícia da publicação de uma HQ com um Superman bissexual causou alvoroço nas últimas semanas. O jogador de vôlei Maurício Souza fez uma postagem homofóbica em suas redes sociais e acabou sendo dispensado do Minas Tênis Clube. Enquanto isso, lá na Califórnia, os criadores do quadrinho precisaram de proteção policial porque sofreram ameaças de leitores que não gostaram da sexualidade do personagem. A internet bombou com o assunto e deu espaço para inúmeros comentários de homens aterrorizados com o beijo gay do Superman.
Diante de tudo isso eu me pergunto: porque a sexualidade do outro incomoda tanto? Para refletir sobre isso, precisamos analisar a sociedade em que vivemos, marcada pelo ferro do patriarcado. Na era medieval, mulheres consideradas inteligentes, questionadoras ou que tinham habilidades com plantas curativas, eram taxadas como bruxas e queimadas em praça pública nas fogueiras da Inquisição. Por conta disso, perderam o feitiço e o contato com a própria natureza. Foram forçadas a a serem submissas e guardaram no calabouço da alma seus livros cheios de conhecimento e magia. Com isso, o homem ganhou espaço e invadiu todo o território. Aprendeu e ensinou o egoísmo e reinou absoluto no império do machismo. Desde então, os meninos recebem uma criação baseada numa masculinidade frágil onde aprendemos que homem não chora, homem de verdade olha e mexe com as mulheres, fazem piadas toscas e não demonstram sentimento. A masculinidade é tão frágil que o uso de uma simples camiseta rosa pode colocar tudo a perder. 
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A princípio isso pode parecer inocente, mas o Brasil ocupa o primeiro lugar nas Américas em quantidade de homicídios de pessoas LGBTQIA+ e também é o líder em assassinato de transexuais no mundo. O que, a princípio, nos parece algo sem importância, acaba virando um problema de saúde pública quando refletimos sobre as consequências dos fatos. 
Psicologicamente falando, a partir do momento que me sinto incomodado com um beijo entre dois homens, seja em uma história em quadrinhos ou na esquina de casa, eu preciso olhar para dentro e encarar este incômodo. É bem provável que existe algo maior que precisa ser observado, uma força estranha que causa sentimentos inexplicáveis e que precisa ser entendido. Que sentimentos são esses? O que eles querem? Em geral, o incômodo não tem nada a ver com o personagens do beijo, mas sim com próprios sentimentos daquele que se sente incomodado. 
O homem que está seguro da sua sexualidade não deveria se incomodar com a sexualidade do outro, já que cada um vive de acordo com seus próprios desejos. Que diferença faz na minha vida se o Superman se relaciona com homens ou com mulheres? Eu só preciso que ele continue salvando o planeta dos vilões, o que resto é da conta dele. A partir do momento que o homem está consciente e em paz com a sua própria sexualidade, não se deve incomodar com a forma que o outro expressa seus sentimentos. Homens podem abraçar e beijar seus amigos, podem cuidar de seus filhos com amor e devem expressar seus afetos para aqueles que amam. Não é uma cor que vai definir a sua sexualidade. Para alguns isso pode parecer muito óbvio, mas, infelizmente ainda são tabus que precisam ser refletidos.
Ainda estamos engatinhando quando o assunto é masculinidade frágil e tóxica e sinto que a luta ainda será grande. Ainda existe uma grande jornada para conseguirmos lidar com a nossa própria sexualidade e, assim, com a sexualidade do outro. É importante entender que, quando eu olho para dentro de mim e me aceito como sou, aceito também a forma que o outro expressa seus desejos.
THIAGO GUIMARÃESEspecialista em Psicologia Analítica e em Neurociência e Comportamento pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Também é autor do livro “O Segredo da Mulher Maravilha”. Atende crianças, adolescentes, adultos e casais. Palestrante, ministra cursos, workshops e escreve sobre relacionamento, comportamento e bem-estar.
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